Receita vai acompanhar trabalhador em tempo real - SISPRO
5403
post-template-default,single,single-post,postid-5403,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-child-theme-ver-1.0.0,qode-theme-ver-10.0,wpb-js-composer js-comp-ver-6.9.0,vc_responsive,elementor-default,elementor-kit-23911
 
Blog

Receita vai acompanhar trabalhador em tempo real

Prevista para janeiro, implantação de banco de informações idealizado pela Receita vai mudar rotina nas empresas
 
A implantação da Escrituração Fiscal Digital da Folha de Pagamento e das Obrigações Previdenciais Trabalhistas (EFD-Social) representa um desafio para empresas, escritórios de contabilidade e profissionais da área de departamento pessoal. Idealizado pela Receita Federal do Brasil (RFB), o projeto tem a proposta de criar um sistema informatizado no qual serão lançadas todas as atividades laborais como, por exemplo, admissões, demissões, atestados e comunicações de acidente de trabalho e aviso prévio (ver arte). A emissão destes dados será feita quase que em tempo real aos acontecimentos, o que resultará em maior rigor no cumprimento da legislação trabalhista e, consequentemente, menor flexibilidade nas relações entre empregadores e funcionários. A medida entra em vigor em janeiro de 2014, mas o prazo não é considerado suficiente para a adaptação.
 
Segundo o presidente do Núcleo de Contadores Consultores de Juiz de Fora (Sinercon), Carlos Ferreira Machado, ainda há pouca divulgação e muitas dúvidas sobre o projeto. “É um processo que envolve uma mudança cultural, e as empresas não estão preparadas. É preciso mais informações por parte do Governo sobre o funcionamento do sistema, e treinamentos para qualificar os profissionais.” Ele explica que a criação da EFD-Social é outra etapa do Sistema Público de Escrituração Digital (Sped), implantado em 2009. “Trata-se do módulo mais complexo de todo o projeto, por conta do grande volume de informações. A EFD-Social irá mudar toda a sistemática da forma de trabalho que é feita hoje.”
 
A transmissão dos dados ao sistema da EFD-Social irá resultar na criação do Registro de Eventos Trabalhistas (RET), uma espécie de histórico laboral do colaborador. A proposta é que cada evento que ocorra no mês seja informado por meio de arquivo XML individual e com antecedência. No caso da admissão, por exemplo, o prazo para envio da informação é de um dia antes do início das atividades do novo funcionário. Já em caso de demissão, o comunicado deverá ser feito no dia em que o desligamento acontecer.
 
Sem acordo
 
Embora especialistas afirmem que a medida não afetará diretamente a rotina do trabalhador, na prática a situação é diferente. Com o controle mais próximo das atividades laborais, haverá menor flexibilidade nas relações entre patrões e empregados. Um exemplo disso é a rescisão contratual. A data para o cumprimento do aviso prévio deverá ser lançada na EFD-Social com antecedência e, portanto, não poderá ser alterada a fim de beneficiar o trabalhador que precisa ser demitido para assumir outro emprego com urgência. Desta forma, o novo sistema impedirá a realização de acordos em que o patrão aceita demitir o funcionário para que ele tenha direito a sacar o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Outra mudança é que, uma vez definido o período de férias, o trabalhador não poderá trocá-lo, pois esta informação deverá ser repassada 30 dias antes ao sistema da EFD-Social.
 
O diretor regional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Oleg Abramov, alerta que é preciso verificar se o projeto tem proposta unilateral. “As empresas irão registrar as informações. É preciso saber se o profissional também terá voz, já que o histórico que será criado é referente a ele”, diz. “Sabemos que há muitos casos de demissão por justa causa baseada em critérios absurdos, por exemplo. O trabalhador terá como se defender ou isso será informado numa visão unilateral?”, questiona. Ele reitera que a CUT “é contrária a qualquer mecanismo que possa rebaixar os direitos dos trabalhadores.”
 
Oficialmente, a EFD-Social prevê apenas registros feitos pelas empresas.
 
Busca por qualificação ainda é pequena
 
Em Juiz de Fora, a procura e a oferta de qualificação para profissionais da área têm sido pequenas. A Receita Federal (RF) e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) locais informaram que ainda não promoveram nenhum tipo de capacitação sobre o tema. Também não há estimativa, por parte de ambos os órgãos, de quando isso poderá ocorrer.
 
De acordo com o gerente de legislação da Prosoft Tecnologia, Danilo Lollio, a busca por informações por parte dos profissionais também tem ocorrido de forma tímida. “Apenas os contadores estão começando a conhecer um pouco mais sobre o assunto e realizando uma divulgação para seus clientes. Tendo em vista que ainda não foi liberado os layouts oficiais pela Receita, essa movimentação ainda está muito inicial.”
 
Para o próximo semestre, o Sinercon tem planos de oferecer treinamentos sobre EFD-Social. “A última palestra que realizamos, em março, teve adesão de cerca de 200 profissionais. É muito importante dar continuidade ao trabalho de divulgação e esclarecimento de dúvidas, afinal, a realidade de mudança está muito próxima”, declarou o presidente do núcleo, Carlos Ferreira Machado.
 
Intenção é combater fraudes e sonegação
 
A EFD-Social será obrigatória para todas as empresas, independente do porte, e implicará em alguns custos adicionais. “O empregador terá que investir na área de capacitação profissional e na contratação de novos colaboradores para atender à demanda destas obrigações”, afirma Danilo Lollio, gerente de legislação da consultoria Prosoft Tecnologia, que acompanhou o processo de criação do sistema e trabalha agora na preparação do mercado. Ele concorda que as empresas ainda não estão prontas para se adequarem e que o prazo para implantação do sistema é curto. “O ideal seria que o processo de mudanças ocorresse em fases”, opina. Atualmente, a multa para quem não se adequar ao Sped pode chegar a R$ 5 mil.
 
O agente de relacionamento da Prosoft, Janderson Macêdo, esclarece que a iniciativa da Receita não consiste apenas em um novo modelo para a folha de pagamento. “É mais uma obrigação acessória com informações sobre a folha, a área de recursos humanos e, também, medicina do Trabalho.” Segundo ele, a grande alteração trazida pelo projeto é a concentração de muitas informações, que hoje são entregues de forma separada, no mesmo ambiente. “Esta unificação servirá de base exclusiva de consulta para diferentes órgãos. Um total de 40% das informações têm objetivo jurídico e poderão auxiliar, inclusive, como provas para Justiça do Trabalho”, destaca Macêdo.
 
A Receita informou, por meio de sua assessoria, que no segundo semestre irá divulgar o layout do sistema da EFD-Social e que manterá o prazo para a implantação total do projeto. O órgão reiterou que o novo sistema irá “auxiliar na fiscalização das operações por meio de cruzamento de dados e auditoria eletrônica.” A expectativa da RFB é que , assim, haja “o combate à sonegação e a redução de fraudes na concessão de benefícios previdenciários e no seguro desemprego.”
 
Por Gracielle Nocelli
10/06/13 – Fonte: Jornal Tribuna de Minas